• João Escapelato

Pequena cidade, grande tradição: a paixão por futsal no interior

Times de municípios menores se destacam na Liga Nacional

Pode uma cidadezinha de quase 30 mil habitantes ser a mais importante do país em um esporte? Carlos Barbosa (RS) é prova de que sim. Em 3 de novembro de 2017, o município da serra gaúcha, cuja população total ocupa o equivalente à metade da capacidade da Arena do Grêmio -  60 mil pessoas -  recebeu oficialmente o título de Capital Nacional do Futsal, publicado no Diário Oficial da União.


Não é exagero. A Associação Carlos Barbosa de Futsal (ACBF) – ou simplesmente Carlos Barbosa, como o time local é conhecido  – é a maior vencedora da Liga Nacional de Futsal, com cinco títulos, além de um hexacampeonato na Libertadores e um tricampeonato mundial. "O futsal é nosso esporte principal desde a década de 60. O campeonato citadino já está na 50ª edição,  ininterrupta. A modalidade é consumida pelas famílias, que comparecem ao ginásio, um lugar tranquilo, seguro. Nossa cidade é de interior, então, o pessoal tem [o futsal] como passatempo", explica Francis Berté, gestor da equipe, em entrevista.


A peculiaridade – cidade pequena e apaixonada por futsal – não se limita ao município de Carlos Barbosa. Das 21 franquias da temporada 2020, sete estão em cidades com menos de 100 mil habitantes. É o caso da equipe Pato, de futsal, oriunda de Pato Branco (PR), município de quase 83 mil moradores que tomaram as ruas para celebrar o bicampeonato nacional do time no ano passado. Ou do rival Marreco, da vizinha Francisco Beltrão (PR).


"Por [Francisco Beltrão] não ser uma cidade tão grande [população estimada em 91 mil pessoas] é o esporte ser popular, todo mundo conhece e gosta. Temos muito apoio não só dos torcedores, mas da imprensa local. Isso nos divulga e leva o nome da cidade para todo o Brasil", destaca o ala Canhoto, do Marreco.


Outra característica dos clubes é a maioria - 18 em 21 times - não estar localizada em capitais estaduais, que, para o ala Bruno Souza, do Carlos Barbosa, provoca situações "curiosas" para quem não conhece o interior. "Eu sou de Recife [Pernambuco], vim em 2002 para cá, fiquei até 2005 e voltei em 2017. Na primeira passagem, uma vez minha esposa foi ao mercado e o cara do caixa, passando o troco, comentou com ela: 'e aquele gol que o Bruno perdeu?' [risos]. Mas, também elogiam. Essa cobrança, até em cima dos familiares, é curiosa e típica de cidade menor", conta o jogador.


A proximidade com a população local também gera memórias marcantes. "Em um dos jogos no Arrudão [ginásio de Francisco Beltrão], um menino veio até mim na quadra e deu a medalha que ele ganhou em um campeonato de luta, em que tinha sido campeão. Ele me entregou dizendo que gostava muito de mim. Tenho a medalha até hoje", revela Canhoto, do Marreco.


Mas, mesmo com apelo à modalidade, a fidelização do torcedor local depende do extracampo. "Estamos próximos da capital [Porto Alegre, a cerca de 107 quilômetros], então a população de Carlos Barbosa pode prestigiar um jogo de futebol, mas ela gosta mesmo é de futsal. Procuramos desenvolver isso já com as crianças. Temos escolas de futsal com cerca de 400 alunos, então as crianças estudam na escola do município e também praticam o futsal conosco, promovem ele na cidade e atraem a família para curtir esse entretenimento", explica Berté, da ACBF.


"Cidades pequenas têm mais calor humano. A paixão envolve a população mais rapidamente. O atleta tem contato direto com o vizinho que vai ao jogo; as pessoas discutem o futsal na pracinha", detalha o presidente da Associação Desportiva Classista Intelli, Aparecido Donizeti Silva, o Cidão.


E é da equipe Intelli que vem a novidade da Liga Nacional de Futsal: a cidade de Dracena, no interior paulista. O município de 46 mil habitantes é a nova casa do time  que, em 2019, teve São Carlos (SP) como sede. A história da franquia bicampeã nacional e campeã da Libertadores, porém, é atrelada ao município de Orlândia (SP), com pouco mais 42 mil moradores, onde a agremiação foi fundada há 42 anos – 35 deles com presença de Cidão.


"Jogamos em Orlândia até o fim de 2016, quando se inicia uma reforma de ampliação no ginásio municipal, para atingir a capacidade exigida pela Liga. A obra acabou não terminando. Fomos para São Sebastião do Paraíso (MG) – a uns 100 quilômetros de Orlândia e onde disputávamos os playoffs da Liga Nacional – por já termos uma identidade com a cidade. Com Minas Gerais passando por problemas financeiros, surgiu a oportunidade e optamos por São Carlos, em 2019", explica o dirigente.


A Liga Futsal 2020 segue sem data de início confirmada. Os clubes esperam contar com o retorno de suas atividades em breve.


Com Agência Brasil


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